
Instrumentos da fé
Os relatos de membros da Igreja Renascer em Cristo sobre o período eleitoral de 2018 e 2022: como a igreja usou a fé para tentar influenciar seus seguidores em benefício das pautas da extrema direita
Uma reportagem de: Felipe Lopes, Larissa Garcez, Leonardo Lira, Lucas Augusto, Luiza Castellani e Victor Lagonegro
Como tudo começou
Nas últimas eleições presidenciais, em 2018 e 2022, o Brasil passou por um processo de radicalização que há muito não se experimentava no nosso país. O fenômeno não foi exclusividade - na Europa, nos Estados Unidos e em parte do leste asiático, líderes com discursos alinhados a ideais que passaram a ser identificados como de "extrema direita" ascenderam e, eleitos ou não, balançaram as instituições dos seus países. Por aqui, o nome Jair Bolsonaro, ou melhor, Jair "Messias" Bolsonaro, ganhou tração na mídia, mesmo quando desacreditado durante as pesquisas eleitorais de outubro de 2018 - "Jair Bolsonaro perde todos os cenários de segundo turno". Ele venceu.
O clima polarizado do país, sob sua vitória, em nada mudou durante os quatro anos de seu mandato - três desses durante a pandemia da covid-19, uma tragédia que, para o núcleo bolsonarista, pareceu apenas mais um tema que poderia ser usado para radicalizar a população. Mas quem foi esse núcleo? Sob a ótica do senso comum, e associado ao forte discurso de moral conservadora de sua base, o bolsonarismo é atrelado a um grupo que cresceu em importância - não só politicamente - nos últimos anos: os evangélicos. Mas até onde podemos fazer essa associação?
A história da fé evangélica
Para responder essa pergunta, precisamos antes nos familiarizar com alguns dados. Segundo o último censo realizado pelo IBGE, em 2010, os evangélicos já representavam a segunda religião com mais seguidores em todo o território nacional - mais de 42 milhões de brasileiros, com tendência a um aumento nesse valor. Hoje, alguns pesquisadores do tema vislumbram que até 2030 nosso país passará por uma mudança no seu perfil demográfico, com o catolicismo perdendo espaço e o evangelicalismo se tornando a religião mais seguida pelo povo brasileiro. E quem é esse evangélico? Segundo o Datafolha, em uma pesquisa realizada em 2019, o arquétipo do evangélico é uma mulher, preta ou parda, com baixa escolaridade e que recebe até dois salários mínimos.


Para nos aprofundarmos no tema, conversamos com Edin Sued Abumanssur, doutor em Ciências Sociais e professor da PUC-SP. Coordenador e orientador do Programa de Estudos Pós Graduados em Ciência da Religião, sua especialidade é a pesquisa do pentecostalismo e protestantismo, estando a frente do GEPP (Grupo de Estudos do Pentecostalismo e Protestantismo), também pela PUC-SP. Na entrevista - que poderia facilmente ser chamada de "uma aula particular" - o professor começa explicando as raízes desse boom evangélico com um recorte importante: não foram os evangélicos como um todo que tiveram um salto nos seus seguidores, mas sim os pentecostais. Os segmentos mais ligados ao protestantismo europeu do século XVI, como as igrejas batistas, presbiterianas, metodistas, luteranas e anglicanas cresceram de forma muito mais discreta e já estão estagnadas há cerca de 20 anos. O boom pentecostal está intimamente relacionado a um fenômeno que ocorreu ainda na década de 70, durante o projeto desenvolvimentista do governo JK: a industrialização do Brasil - e, por consequência, o que ficou conhecido na história (talvez de forma inadequada, pontua o professor) como "êxodo rural".

Com essa vinda para a cidade, explica Edin, o indivíduo que levava uma vida ligada à terra e numa lógica socioeconômica voltada totalmente para a sobrevivência familiar, passa a se relacionar com um meio - as cidades - que privilegia os aspectos individuais da vida - no trabalho, no lazer e, naturalmente, na religião. Dessa forma, o catolicismo [popular] que antes era a religião daquela pessoa que veio do campo não responde mais às suas necessidades e ao seu novo padrão de vida na cidade - e é no pentecostalismo que essas respostas serão encontradas. Para o professor Abumanssur "o pentecostalismo é a versão urbana do catolicismo popular". Apesar da frase não ser de sua autoria, ele a explica: mesmo que o pentecostalismo traga muitos elementos novos à religiosidade do brasileiro, ele mantém uma tradição que é própria da espiritualidade do povo brasileiro que é formada pelo catolicismo. Por mais que a origem histórica do pentecostalismo seja protestante, o pentecostalismo em si não o é.
O pentecostalismo, por definição, encontra espaço na vida urbana justamente por estar alinhado ao discurso desenvolvimentista que ganhava tração na época; a vida humilde, antes glorificada pela religião, tinha seu lugar tomado por famílias com perspectiva de crescimento econômico, impulsionadas pele "teologia da prosperidade", em um país cuja elite política do momento aproveitava desse discurso para se manter no poder - ainda que sua base eleitoral sofresse as mazelas do inchamento urbano, com o crescimento descontrolado da migração para as cidades, o surgimento de mais e mais favelas e a gentrificação afastando os moradores da periferia dos centros urbanos.
Os evangélicos na política
De volta ao presente, ou pelo menos mais próximo dele, o professor Abumanssur esclarece que a ligação evangélica com a política que vemos no Brasil hoje não é um fenômeno singular. Na Guatemala, por exemplo, evangélicos já ocupam cargos no legislativo, no judiciário e concorrem à presidência muito antes de Jair Bolsonaro sequer ter pensado em viajar para Israel em 2016 e ser "rebatizado" no rio Jordão (já que o ex-presidente é, na verdade, católico) pelo pastor Everaldo - este que foi preso em 2020 e hoje está solto sob a condição do uso de tornozeleira eletrônica enquanto ainda for investigado por esquemas de corrupção ligados ao governo de Wilson Witzel.
Mesmo no Brasil, a história do que hoje é a "bancada evangélica" começa ainda nos anos 60. No livro "Neopentecostais", de Ricardo Mariano, o autor explica que através da substituição da velha máxima "crente não se mete com política" pelo slogan "irmão vota em irmão", o meio evangélico ganhou a atenção de diversos partidos e candidatos, que passaram a cortejar principalmente as lideranças evangélicas para que promovessem seus projetos políticos. Mais tarde, as próprias instituições viriam a desenvolver um sistema para lançar seus próprios candidatos. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), liderada por Edir Macedo e com um conselho formado por bispos de sua confiança, por exemplo, desenvolveu uma racionalidade eleitoral que é explicada por Bruna Suruagy no livro de Andrea Dip "Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder":
“A cúpula da Igreja [...] indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos, de maneira geral, têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. Cada templo, cada região tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual."
Para o professor Abumanssur, essa desconexão com a comunidade na escolha de candidatos tem forte relação com o caráter conservador que foi atrelado aos evangélicos nos últimos anos. Para ele, o eleitor evangélico não se posiciona essencialmente a partir de um viés ideológico, mas sim de uma noção extremamente precisa de seu lugar dentro do sistema.
"Não interessa quem esteja no poder. A sobrevivência desse povo nunca dependeu de ações do Estado para que eles pudessem garantir o dia-a-dia deles. Eles sempre sobreviveram apesar do Estado."
Ele complementa esse raciocínio com um comentário sobre a migração do voto evangélico que, em 2002, ajudou na eleição de Lula e, em 2018, participou ativamente na eleição de Bolsonaro.

"Não interessa para essa cultura popular uma ruptura radical com a ordem estabelecida, pois essa mesma ordem que oprime, ela também permite viver."
Na reportagem que você está prestes a ler apresentaremos Amanda, Bruno e Vitória, três membros da Igreja Renascer que contam suas experiências e percepções sobre o período eleitoral de 2018 e 2022. Os relatos revelam constrangimentos, inseguranças, arrependimentos e também aprendizados que cada um deles tirou das situações que presenciaram dentro da instituição - independentemente de seus posicionamentos políticos e escolhas de candidatos. Dessa forma, convido você, caro(a) leitor(a), a nos acompanhar em cada uma dessas histórias.
Uma boa leitura.

Capítulo I: Que aflição os espera, ó guias cegos!
por Leonardo Lira
revisão: Lucas Augusto e Victor Lagonegro
Amanda Sezerbello é líder de um grupo de jovens da igreja. Formada em história, sempre esteve envolvida e precisou lidar com conflitos políticos – ela conta que vem de uma família engajada politicamente. Seus tios, primos e a sua família como um todo, identificam-se como “esquerdistas” que, até então, nas últimas eleições, representavam a oposição política do momento. O fato de ser historiadora tem muita influência na forma com a qual Amanda lidou com os conflitos internos relacionados à política no meio religioso - por ter estudos formais na área, conhece sobre a história da política, sobretudo no Brasil, e como se deram as formações de direita, esquerda, centro e como isso impacta nos desafios sociais que enfrentamos nos últimos anos no nosso país.
Desde o início do período eleitoral, Amanda percebeu que se encontrava na oposição daquilo que estava sendo defendido, apoiado e propagado pela sua igreja. Com uma opinião já formada, passou por alguns conflitos internos – não tanto nas eleições de 2022, mas principalmente nas eleições de 2018, quando mais se sentiu engajada e revoltada com o processo pré-eleitoral. Para lidar com esse momento de polarização e discordância, ela procurou pessoas que enxergavam melhor o seu lado e que estavam dispostas a conversar sobre isso e, acima de tudo, conta que colocou seu relacionamento com Deus acima de todas as coisas.
“Debaixo de oração, debaixo de jejum, que é aquilo que eu acredito que sejam os caminhos de decisão corretos para mim, eu me mantive em paz na minha decisão”
Como líder de um grupo de jovens, Amanda destaca que não acredita que apenas uma posição de liderança dentro da igreja seja o suficiente para guiar os fiéis no âmbito político. Para ela, a intimidade com Deus característica desses líderes é fruto de uma formação espiritual que não necessariamente se relaciona com a formação sociopolítica daquele indivíduo enquanto cidadão – e por conta disso as divergências tornam-se nada mais do que naturais.
Segundo o professor Abumanssur, os evangélicos brasileiros têm como característica a facilidade em mudar de liderança de acordo com a necessidade – fenômeno herdado diretamente do período pós-reforma protestante. Ele destaca que, nas últimas eleições, muitos evangélicos optaram por mudar de congregação, ou até mesmo de segmento religioso, apenas por um líder demonstrar em culto algum tipo de posicionamento político – tanto à direita como à esquerda.
Amanda, por sua vez, acredita que o debate político deva existir em um contexto religioso pois, desde que se estuda a história no mundo, política e religião sempre estiveram entrelaçadas - entretanto, acredita que hoje é muito mais difícil encontrar a convergência dessas esferas. Para ela, o caminho está pavimentado na fuga da imposição de um pensamento político-filosófico dentro das igrejas e na construção de um espaço para o debate. Para Amanda, é através do debate que nos tornamos críticos, e por isso ele é bem-vindo – e não nos deixa esquecer seu diploma em história ao fazer uma ressalva importante: o debate deve sempre ser pautado sob argumentos válidos e embasados, a fim de estimular o senso crítico daqueles que estejam envolvidos.
Para o professor Abumanssur, a visão de que o evangélico segue as lideranças religiosas cegamente é uma manifestação preconceituosa e que deve ser mudada. O senso crítico descrito por Amanda não só existe, como também é extremamente aguçado - mas não necessariamente tem origem ideológica. Sua construção está muito mais relacionada a uma percepção construída historicamente sobre a própria realidade vivida que se traduz em uma manifestação política que, para quem a vê com olhos externos, pode parecer contraditória, mas em sua raiz não é.
“Nesse sentido, precisamos respeitar, e muito, a possibilidade que a população evangélica tem de fazer uma crítica - mesmo que ela não seja feita da forma como esperamos.”
Professor Doutor Edin Sued Abumanssur
Para a jovem historiadora, outro elemento amplamente debatido no espaço da igreja foi a liberdade de expressão. Ela reconhece sua importância, e lembra que se a sua liberdade fere o outro, então ela deixa de ser liberdade, passando a ser apenas falta de respeito.
“Dentro de um grupo religioso-social, o respeito é a base de todas as coisas.”
Com isso em mente, Amanda procurou evitar debates que não dariam em nada – a maioria deles, segundo sua percepção, só terminavam em xingamentos e falta de respeito. Sua principal lição foi não entrar em debates em que as pessoas não estejam dispostas a debater. De uma eleição para outra, ela mudou radicalmente o seu posicionamento em relação, principalmente, às redes sociais, porque ela enxergou que as pessoas não queriam discutir política, mas sim expressar suas opiniões através do ódio, reprimindo o outro por ter uma posição diferente.
Ela conta que esse comportamento se replicou em quase todos os ambientes que frequentou durante as eleições – fosse o ambiente pedagógico, religioso ou familiar, ela percebeu que as pessoas não estavam dispostas a mudar seus posicionamentos ou suas visões políticas. Para ela, as pessoas não mudam de opinião porque há uma tentativa de explicar um outro viés ou percepção do mundo - e a isso Amanda atribui o crescimento do ódio e da intolerância, mesmo dentro da igreja.
“Eu conheci várias pessoas que não souberam separar as coisas e acabaram saindo da igreja, brigando com familiares, saindo de empregos, porque não souberam separar as coisas e levaram muito pro lado pessoal e não para o lado da argumentação mesmo.”
Entretanto, em uma reflexão recente, Amanda acredita que falhou na missão de transmitir seus conhecimentos e crava: "isso seria algo que eu mudaria nas minhas atitudes durante o período eleitoral" – afinal, ela se descreve como alguém que acredita na bíblia. Na bíblia que, para ela, valoriza o conhecimento acima de todas as coisas. E foi justamente nessa fé, nessa crença, que encontrou base para se manter firme em seu posicionamento do início ao fim. Apesar de perceber os esforços de alguns líderes em influenciar não só a sua escolha, como também a de todos os fiéis, ela se manteve firme. Mesmo sendo minoria, Amanda se manteve do começo ao fim, dizendo a mesma coisa.

Capítulo II: Não sabeis vós, irmãos, que a lei tem domínio sobre o homem por todo o tempo que vive?
por Luiza Castellani
revisão: Lucas Augusto e Victor Lagonegro
Bruno Diego é editor audiovisual, designer e programador. Com apenas uma passada de olho em sua rede social é possível perceber que aquele perfil é de um ferrenho promotor de políticos, com postagens focadas na promoção de políticos da extrema direita. Para Bruno, a interação entre a religião e a política existe independentemente da crença religiosa em questão - e considera que existe uma significativa relevância nessa relação, principalmente em virtude das práticas da fé que se desdobram dentro dos parâmetros legais. Quando uma congregação religiosa, seja ela uma igreja ou qualquer outro grupo, busca promover uma celebração utilizando espaços públicos, é necessária uma série de estruturas e autorizações que partem justamente das esferas governamentais, sendo essencial que tudo seja minuciosamente planejado para que o evento ocorra de forma pacífica e beneficie todos os participantes. Nesse contexto, Bruno ressalta que é importante a parceria entre as esferas religiosas e políticas: a cooperação é necessária para que a lei prevaleça.
O professor Edin destaca que, na Europa, a cooperação descrita por Bruno se concretiza historicamente. As igrejas não só contribuíam para a manutenção das esferas políticas como também para a manutenção dos Estados nacionais como um todo. Entretanto, no continente americano, as relações se manifestam de maneira mais conflituosa, como por exemplo durante a ditadura militar – período no qual a igreja [católica] se posicionava fortemente contrária ao regime vigente. Ainda assim, religião e política andam lado a lado, e o professor não enxerga uma mudança nesse fenômeno.
Bruno entende que a relação entre a religião e a política, olhando pelo lado das pessoas que são religiosas, pode ser boa ou ruim – e isso depende de quem está no meio dessa relação. Alguns líderes podem fazer um bom trabalho de união entre as duas esferas, mas sabe que nem todo mundo age dessa maneira e alguns mediadores podem acabar causando reações negativas. No seu ponto de vista a relação entre a religião e a política está totalmente ligada às pessoas que funcionam como mediadoras, e é essa relação que determina se essa simbiose trará resultados positivos ou negativos. Quando as pessoas não agem de forma honesta ou abusam da fé para promover seus interesses políticos, os fiéis podem se sentir enganados e até usados. Para Bruno, essa não é a maneira correta de se relacionar a fé e com a política.
Da mesma forma, o professor Abumanssur tece uma crítica a políticos que procuram encontrar uma ponte com os evangélicos através do discurso religioso. Para ele, não há um “jeito religioso palatável” para dialogar com essa base, uma vez que o objetivo final do político é, e apenas, fazer política. Dessa forma, o caminho para encontrar essa população é com boas práticas políticas que atuem não no âmbito religioso da vida dos fiéis, mas sim em outras áreas de igual importância que estão muito mais alinhadas ao “fazer político” do que a religião em si.
Bruno reforça sua ideia quando diz ser notável que políticos ligados à religião, em certas ocasiões, podem trazer melhoras para a região onde uma igreja ou um templo é construído. Mas ele também entende que existem pontos negativos, dando como exemplo casos em que políticos utilizam suas ligações com a religião para benefício próprio, usando a situação para se aproveitar de oportunidades para obter vantagens políticas ou praticar uma “politicagem barata”. Os políticos podem buscar se vincular indiretamente com a crença das pessoas apenas para obter votos e, em seguida, desaparecer sem ao menos cumprir qualquer promessa feita.
Para Bruno, a divulgação de propaganda política no ambiente religioso é mais eficaz quando existe uma certa afinidade entre as questões relacionadas a valores e princípios. Para exemplificar essa situação o designer levanta a questão da impunidade:
“Um exemplo bom disso seria a questão da impunidade, né? É comum, você vê pessoas reclamarem de penas muito brandas para crimes, por exemplo, de corrupção. Então, a propaganda política, se ela vem numa linha mais firme, que defenda penalidades maiores, leis mais rígidas em relação a, por exemplo, corrupção, acredito que isso já seria um alinhamento maior de princípios e valores. Então, essa rigidez maior nas leis e nas penas pode ser uma propaganda que dê certo no meio religioso.”
Bruno entende que a busca por maior rigidez nas leis e punições pode se tornar uma mensagem política eficaz, a qual será capaz de chamar a atenção e cativar os fiéis que compactuam com tais ideais e compartilham dessa mesma preocupação moral.
Quando perguntado sobre a sua opinião em relação às duas últimas eleições, Bruno diz que existe uma adesão dos brasileiros às vertentes do cristianismo, tanto a católica quanto a protestante, e que essa relação teve um impacto muito significativo nas eleições de 2018 e 2022. Nessas eleições, os candidatos que abraçaram pautas relacionadas à fé ganharam destaque e exerceram forte influência sobre o eleitorado. A conexão entre os eleitores e os políticos que defendiam valores e princípios cristãos foi notável e teve um papel muito importante para os resultados que foram apresentados nas urnas.
Em entrevista com Elias Lacerda, psicólogo formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pós-graduando em Terapia da Aceitação e Compromisso (ACT), ele explica que muitas vezes a fé não se restringe somente a um âmbito privado, em uma relação eclesiástica e religiosa, mas ela pode se comportar como uma visão de mundo.
“É muito comum que pessoas religiosas que têm uma visão de mundo mais adepta a ideias religiosas tragam e incorporem essas suas visões, essas convicções e princípios, à suas decisões políticas."
| Elias Lacerda
Uma vez que os eleitores perceberam que um candidato estava alinhado com questões de costumes, principalmente aqueles considerados moralmente corretos pela doutrina cristã, eles se sentiram impactados em relação ao seu voto. A identificação pessoal com essas pautas de costume desempenhou um papel muito importante para os eleitores, pois esses viam nos candidatos um reflexo das suas próprias convicções e valores. A afinidade criada por eles acaba criando uma conexão emocional entre os eleitores e os candidatos, fazendo com que os eleitores tomem suas decisões eleitorais, muitas vezes, baseado nesse alinhamento moral.
Para Lacerda, a relação vista entre política e religião, principalmente nas eleições de 2018 e 2022, se mostrou prejudicial, pelo fato de pessoas ligarem a sua convicção religiosa à uma escolha política, atrelando suas posições a um só candidato ou partido político, acabando por confundir suas crenças com seus posicionamentos políticos.
“Você tem uma convicção religiosa e esse candidato é o único que te representa, que representa a sua posição política. Então, todo mundo que não vota nesse candidato está contra a sua visão política e, por consequência, está contra a sua posição religiosa.”
Elias Lacerda
Para Bruno a influência de se sentir conectado com as pautas de tradição cristã não apenas influenciou nas decisões eleitorais, mas também foi responsável por criar um sentimento de identificação e confiança nos candidatos políticos. Para muitos eleitores, a busca por um candidato que tenha as mesmas convicções e princípios religiosos se tornou um critério essencial para formar a decisão de quem será seu representante político. Nesse contexto, o professor Edin fala sobre a identificação do evangélico com as pautas conservadoras:

Para Bruno, ficou evidente nas últimas eleições que a relação entre a religião e a política desempenha um papel crucial, destacando a importância das questões cristãs e a influência direta que essa exerce sobre os eleitores. Esse vínculo entre a fé, valores e decisões políticas mostra que a religião é impactante na formação da posição política das pessoas - influenciando diretamente na tomada de decisão dos fiéis.
"Com o crescimento evangélico, esse posicionamento [do conservador evangélico] se torna mais vivo, mais atuante e mais preocupante, porque de fato isso pode levar a determinados recuos que levarão a perda de determinadas conquistas que a gente julgava que estavam bastante consolidadas na sociedade brasileira - e agora vemos que não estavam."
| Professor Doutor Edin Sued Abumanssur

Capítulo III: Amarás ao próximo como a ti mesmo
por Larissa Garcez
revisão: Lucas Augusto e Victor Lagonegro
Usar da fé e do amor para apoiar e lutar por causas dentro da igreja é parte da rotina de Vitória Cruz, jovem advogada que participa de ações voltadas para o combate à fome e pela propagação do evangelho dentro de comunidades carentes. Membro da Igreja Renascer desde 1999 – seu ano de nascimento - Vitória encontrou sua conexão com a fé na possibilidade de ajudar e fazer o bem a quem mais precisa.
Sempre buscando estar ao lado de outras mulheres, ela faz parte do projeto “Justiceiras” que apoia mulheres vítimas de violência doméstica oferecendo a elas atendimento psicológico, médico, social e jurídico – vertente na qual Vitória presta assistência ativamente.
Seus valores, princípios e seu espírito de união caminham com ela em tudo que faz e por onde vai. Nas eleições de 2018 isso não foi diferente – mesmo sempre deixando claro o que pensa, Vitória evitou criar conflitos com os demais colegas da Renascer, mas, apesar de seus esforços, ela conta que a pauta política estava muito presente nas conversas sobre candidatos e ideologias.
“Independentemente da posição política que a pessoa tem, ela continua sendo meu irmão em Cristo”
Vitória não via ali um cenário para criar inimizades como muitas pessoas viam. Ter opiniões distintas e querer votar em candidato A, candidato B ou candidato C não é algo que a faria desfazer os laços com qualquer pessoa dentro da igreja. Ela sabia que ninguém chegaria a lugar algum impondo seu pensamento sobre um candidato ou outro. A igreja deveria ser um lugar de comunhão e paz entre irmãos.
Por muitas vezes, Vitória não entendia por que os debates políticos adentraram o espaço da igreja, mas tinha certeza de que o clima se tornava mais pesado num lugar onde você deveria estar em contato com a sua fé e paz, principalmente após assistir ao culto. Para ela era uma discussão que estava deslocada naquele lugar, mas sem que alguém pudesse evitar, ali havia se colocado e agora era necessário lidar com as consequências disso.
Algumas consequências possíveis desses tipos de conflitos e de um eventual afastamento de uma comunidade religiosa são emocionais e sociais. De acordo com o psicólogo Lacerda, um dos resultados mais preocupantes é o isolamento, levando em conta esse corte abrupto de vínculos emocionais e afetivos após uma perda de identificação com um grupo, uma comunidade de fé, que já foi muito importante para o indivíduo. Ele fala em um sentimento de desamparo, dificuldades para iniciar novos relacionamentos e em conectar-se novamente com pessoas em outro grupo de fé.
Lacerda também aponta algumas formas de lidar com possíveis exclusões e julgamentos sociais após a saída ou afastamento de uma comunidade religiosa. Segundo ele, o primeiro passo é sair bem, deixar claro o motivo de sua saída, evitando conflitos e esclarecer que a saída não é uma questão contra as pessoas daquela comunidade, mas sim algo relacionado às suas próprias convicções.
Ele deixa claro que é importante se manter aberto a relacionamentos com as pessoas da antiga comunidade, na medida do possível. Lacerda ressalta que há casos mais graves em que não é possível manter esses relacionamentos, como em situações de violência psicológica, ou que as pessoas deliberadamente buscam excluir um indivíduo. Nesses casos, ele recomenda a procura de uma rede de apoio - outros amigos de fé ou até uma nova comunidade.
“É muito importante manter os vínculos. Não se isolar, não se manter sozinho. Manter ou, se necessário, até mesmo criar novos vínculos.”
Elias Lacerda
Vitória conta que muitas vezes, participando de debates do qual não se sentia à vontade, ela presenciava, por motivos rasos, pessoas envolvidas em discussões e criando inimizades que durariam para o resto da vida – e, por vezes, acabava envolvida nesses debates. Quando isso acontecia, seu reflexo natural era ficar perto de pessoas que tinham pensamentos semelhantes aos seus.
“É a famosa bolha também, né? Pessoas com quem eu ando e prefiro andar não são muito diferentes daquilo que eu penso e tenho como opinião”
Em relação às bolhas sociais e essa ação de buscar diálogo com semelhantes, visando fugir de atritos, Lacerda fala que esse é um comportamento natural do ser humano, como é possível ver nas redes sociais, onde, se você interage e se engaja mais com um assunto, mais temas parecidos serão entregues para você. Ele diz que esse comportamento acabou se estendendo para diversas áreas da vida, como a política, que possui diversas pessoas com diferentes opiniões e posições. Lacerda ainda pontua que, mesmo sendo algo natural, ele vê como algo prejudicial, já que as pessoas acabam se fechando em bolhas onde um único discurso prevalece.
“A gente acaba se fechando em guetos de pensamento e a zona cinzenta praticamente não tem habitação, ninguém tá ali pronto para tentar fazer uma posição um pouco mais intermediária”.
Elias Lacerda
Na tarde do dia 28 de outubro de 2018, 2º turno das eleições presidenciais, Vitória não se sentiu pressionada e nem pensou em todo discurso político que ouviu dentro da Renascer na hora de finalmente apertar dois números na urna eletrônica e começar a contar uma história que impactaria na vida de milhões de brasileiros. Ela sabia que a palavra e a opinião formada estariam dentro dela e que o fato da igreja apoiar o candidato Jair Bolsonaro, até então candidato pelo PL, não afetaria em nada sua decisão - mas sabia, também, que não respondia por todos os fiéis.
Ainda em outubro de 2018, mas agora às vésperas desse 2º turno, o IBOPE e o Datafolha indicavam 13% da população entre indecisos, brancos e nulos. Foi em meio à essa indecisão generalizada, que Vitória ouviu de um líder religioso que, caso suas orientações não fossem seguidas “Deus irá te castigar, a mão de Deus vai pesar! Vai pesar sobre o povo, vai pesar sobre a família...”. Isso soou para Vitória como algo que não poderia ser relevado. A igreja, que para muitos fiéis é um refúgio dos problemas do cotidiano, das questões que afligem a vida no trabalho, um espaço para autoconhecimento espiritual – e, naquele momento, um ambiente para escapar das questões que envolviam o período eleitoral – tornou-se mais um espaço de atrito e influência. Esse fato, descreve, a marcou, e a fez pensar que presenciar esse tipo de fala não estava nada certo, ainda mais sabendo o quanto aquelas palavras poderiam agir na mente das pessoas.
“Autoridade [religiosa] que é autoridade deveria entender que a nossa boca, o que ela fala, tem muito poder”
Sobre esses conflitos entre ideologias políticas e visão de fé, Lacerda diz que um bom caminho é ter domínio dessas ideologias políticas e de sua própria visão da fé, estudando, se informando, conhecendo as possibilidades, os princípios e os limites de cada uma das duas, buscando alinhar essas questões de forma que faça sentido e seja coerente.
O psicólogo também comenta sobre possíveis desafios psicológicos, como ter que lidar com pessoas que não buscam esse conhecimento e alinhamento das questões relativas à fé e a ideologias políticas. Por isso, ele acredita que essas situações gerarão conflitos com pessoas de seu grupo religioso, com familiares e até com pessoas de ideologia política parecida, mas que talvez não entendam uma posição mais cautelosa.
“Eu acredito que ter que lidar com esses conflitos vai exigir da pessoa um certo autocontrole...autoconhecimento para ela poder se manter firme nas suas convicções políticas e, consequentemente, nas suas convicções de fé.”
| Elias Lacerda
“Já dizia a bíblia, não é? Fé é aquilo que eu não vejo”
Em meio a um cenário perturbador, onde jornalistas estavam sendo ameaçados, pessoas corriam risco ao expor suas opiniões nas ruas, candidatos não se sentiam seguros durante suas campanhas e milhões de brasileiros estavam aflitos com o rumo que o país tomaria, Vitória procurou encontrar seus momentos de paz e calmaria com Deus. A figura de Deus na sua vida, principalmente em momentos de turbulência, era tudo que ela tinha – e tudo o que ela precisava. Não porque Deus podia fazer algo para amenizar as ameaças e o ódio, mas pelo que Deus representa para ela. Estar na igreja e em contato com sua fé é algo que traz leveza e paz para sua mente e coração.
“Não tem como a gente, uma única igreja e somente a igreja, querer mudar o mundo.”
Ainda sobre essa questão dos conflitos entre crenças políticas e religiosas, Lacerda acrescenta uma forma de lidar com essas situações: além de buscar as bases dessa ideologia política e da crença religiosa, ele fala sobre entender a raiz desse conflito - de onde ele surge?. Ele ressalta que é muito importante tentar trabalhar com o que incomoda; essa coisa que está incomodando diz muito sobre aquilo que importa para o indivíduo. Lacerda sugere que o indivíduo questione se ele não está colocando a ideologia política acima da convicção religiosa, interpretando essa convicção a partir da ideologia política, ou até mesmo não estar entendendo as raízes de cada uma dessas convicções.
O clima entre os fiéis era conflituoso para Vitória. Ela sabia que pessoas tinham opiniões diferentes - e que tinham o direito de tê-las. Sabia, também, que muitas pessoas queriam impor seus pensamentos para os outros e dissuadi-los a crer naquilo que julgavam ser correto. Independentemente do que falassem e de como falassem, era preciso crer na palavra que é a VERDADE. Mas afinal, o que é essa verdade? Vitória costuma falar que na bíblia ela crê até na capa, então tudo que está na bíblia é, para ela, essa verdade. Sua fé é o que a move. Ali, ela encontra o que é correto para si, como agir para com os outros e como amar.
Deus sabe de todas as coisas. Deus é amor. Deus é eterno.
Entrevistas
Felipe Lopes
Lucas Augusto
Victor Lagonegro
Redação
Larissa Garcez
Leonardo Lira
Luiza Castellani
Victor Lagonegro
Revisão, site e infográficos
Lucas Augusto
Victor Lagonegro
Orientação
Professora Carolina Klautau